Vimos em sala de aula de que
forma a Filosofia pode ser pensada em relação à arte ao caso de percebê-la a partir do sentimento do Ser: De dentro pra
fora. Ou seja, a Filosofia não está fora de cada um de nós, ela deve ser
instrumento para pensarmos com
profundidade as questões da Vida e aqui, mais especificamente, as questões que
envolvem a Filosofia e a Arte.
Desde o momento que nascemos até chegarmos aqui, no ensino médio, temos
formas de pensar diversas, pois nosso modo de pensar depende da História
individual de cada um, como cada um aprendeu a se relacionar consigo mesmo e
com o outro. Assim a Filosofia se apresenta como a forma que nos relacionamos
com o que aprendemos com outras pessoas, como lemos a Vida em nossa volta, e o
mundo.
Valemo-nos do conhecimento que
trazemos e como lidamos com o que aprendemos, mais especificamente com a
aprendizagem de filosofar.
Em alguns momentos refletimos sobre a relação de cada um de nós com o nosso corpo.
Observamos que o corpo expressa saber, pois nos identifica de que forma agimos
no mundo, de que forma ocupamos o espaço que vivemos e nos relacionamos.
Enfim, passamos a perceber de que forma aprendemos e colocamos em
prática o que aprendemos, ou de outra forma, de que forma pensamos sobre nossas
atitudes, como nos posicionamos diante do mundo.
Pois bem, se somos seres
singulares, únicos entre nós mesmos, e a nossa postura quanto ao outro é que
forma um diálogo com troca de saberes, aprendemos e construímos a
nossa cultura, e assim nos identificamos com o que aprendemos juntos, em coletividade.
Num primeiro momento, no contato
com o outro Ser, queremos ou não o saber,. Encontrando algo
significativo e que faça eco dentro de
nós; no momento seguinte, nos deparamos com o entendimento do saber, mas
que precisa de algo a mais para que faça parte de nós; daí a compreensão do
saber nos faz lembrar algo, nos faz
conviver com este saber e seguidamente
podemos nos explicar. Cada explicação será singular, cada um se expressa de uma
forma, por isso não há UMA explicação
para tudo, e sim uma explicação de cada
um de nós, do nosso íntimo, de como aprendemos
a lidar com o saber, neste
caso ninguém explica, mas explicamo-nos.
É neste sentido que a Obra de Kandinsky também se torna significativa
para nós, pois é o primeiro artista a
expressar seu pensamento, sua Arte de dentro para fora, filosoficamente
imprescindível para nós.
Wassily Kandinsky defendeu a liberdade de criação. Para tornar
significativa a sua Obra, é preciso conhecer como esta concepção de Arte
nasceu. Kandinsky foi um Artista Russo. Indignado com a miséria, a falta de
liberdade e a dificuldade de trabalhar a sua Arte, pois a Rússia vivia sob uma
monarquia, o governo do Czar, que dificultava o desenvolvimento da Rússia que,
sem nenhuma mudança, e, mesmo diante das transformações que a Europa passara, a
Rússia ainda vivia sob um reino, atrasado.
Kandinsky mudou-se para Alemanha onde conseguiu desenvolver a sua Arte
e, longe de fugir da sua responsabilidade de Cidadão russo, se corresponde com
artistas do mundo todo e se engaja na Revolução Russa. Neste momento, de 1905 a
1917, a Rússia vive uma profunda
Revolução. Era preciso repensar toda a forma de convívio Humano em todas as
suas dimensões. Era preciso alfabetizar os camponeses, que seriam livres para o
plantio, para pensar sobre suas condições. Por isso era preciso pensar livremente,
era preciso pensar como não mais viver sob o manto do rei, e deixar recair sob
os ombros de cada russo, a sua responsabilidade política de construir outra
Sociedade.
Kandinsky e diversos outros artistas passaram a pensar livremente a sua
arte. A Poesia se desenvolvia em cada esquina, as artes plásticas tiveram um
furor de criação, há muito não vivido por diversos povos.
Kandinsky assinou o Manifesto Concretista para que a Arte servisse a
Revolução. Todos tinham a tarefa de transformar coletivamente a Sociedade, e os
artistas se propuseram assumir também esta responsabilidade. Fora professor, construiu
museus nos lugares mais pobres da Rússia e foi conhecer a cultura do povo pobre.
Mesmo Kandinsky não sendo um
concretista, a Revolução iria melhorar a Vida de todos, já que todos defendiam
o governo da maioria. Era o Comunismo como finalidade e o Socialismo como um caminho. Kandinsky assumiu
o papel de fazer a Revolução com a maioria.
No entanto, com a morte de alguns
líderes da URSS, Josef Stálin assumiu o poder e muitos foram expulsos, presos,
obrigados a confessar crimes que não cometeram e o Socialismo se transformou
num Capitalismo de Estado. Os expurgos foram muitos: líderes como Leon Trotsky,
que fora chefe do exército Vermelho durante a Revolução, foi perseguido por
Stálin e sua polícia e morto no México depois de passar por diversos países
dominados pelo medo das polícias políticas da URRS e dos EUA, a KGB e a CIA
respectivamente, que aumentavam seu contingente pelo mundo biplolarizado entre
estes dois países com seus respectivos Sistemas em destaque: o Socialismo (que
se tornou um Totalitarismo depois da
morte e do expurgo de seus principais líderes pelo poder totalitário de Josef Stálin e sua polícia) ou o Capitalismo,
que em suas formas de poder, se dividiu entre o nazismo, o fascismo o
franquismo, ou o Capitalismo estadunidense. Um grave exemplo desta violência
foi com a morte de Maiakovski, um dos mais completos artistas que se engajou
na Revolução. Muitos artistas não
agradavam os poderosos: A arte faz o povo pensar.
Kandinsky continuou com sua arte, questionando estes rumos da URSS.
Desfez-se do Manifesto Concretista, que tinha se desviado de princípios de liberdade, para se tornar a arte oficial da Revolução e impedia que
seus artistas fizessem o que sentiam. Era o fim da Revolução e o início da Reação, com o totalitarismo de Stálin. Kandinsky
na Alemanha deu aulas na Escola Bauhaus, onde se correspondeu com artistas
impressionistas. Como vimos em sala, o impressionismo nas artes plásticas se
apresentava valorizando mais as cores que
os desenhos. Ao valorizar as cores, dá ênfase ao claro e ao escuro,
dimensionando um caminho luminoso que o Ser Humano deve trilhar. É neste
sentido que a arte impressionista dialoga com a teoria positivista no âmbito
político. Ao invés do desenho, são as pequenas pinceladas que fazem da arte
impressionista, singular. Na arte impressionista, percebemos como as formas
escondem um véu de realidade que para estes artistas era uma questão. A
realidade não estava fora do Ser, cada um traria dentro de si. Mas no
impressionismo, a figura da realidade é que era importante. Na Alemanha,
Kandinsky também começou a se confrontar com o novo governo que nascia: Hitler
e o nazismo. Sua arte foi tida como suja, e ele foi obrigado a sair da Alemanha
como muitos outros artistas.
Kandinsky Seguiu para a França
onde passou a conhecer e se relacionar com diversos artistas.
Ao romper com o impressionismo, se relacionou com diversos outras tendências
da arte e passou a defender o expressionismo. O expressionismo deveria ser a
expressão interior do artista, individual, emocional, de dentro para fora,
diferente do impressionismo que defendia uma impressão da realidade. Daí a relação entre Arte e Filosofia.
Ao dialogar com a música, trouxe o músico Arnold Schoenberg para o
centro da sua postura na arte,
investigando a relação entre a música atonal e
a atonalidade das cores em sua arte plástica. Neste sentido, a música e
a cor eram sensações importantes na experiência interior do artista. Enquanto a música apresenta um tronco
harmônico que podemos comparar com o refrão, a música atonal abandonava o refrão
e punha em condição infinita a criação musical, que assim Kandinsky também buscava. Assim como na
música, Kandinsky comparava o universo
das cores, quando a mistura das cores davam tons infinitos em sua Obra.
Na França, as diversas tendências da Arte também dialogavam. A produção
cinematográfica seguia o mesmo caminho. O espectador chegava a receber uma cartela que era raspada ao iniciar
o filme. Com esta cartela, o espectador sentia os cheiros construídos como
parte da linguagem cinematográfica do filme que passava na tela, de cunho
expressionista.
Todos os sentidos eram
fundamentais na arte, defendia Kandinsky. Ao criticar a arte da vanguarda burguesa que
defendia a visão e a audição como
sentidos primários e primeiros, e a realidade como condição da igualdade de todos; os demais
sentidos, eram vistos como secundários para a arte burguesa.
Kandinsky defendia então que as
cores tinham sentido. É Kandinsky quem vai relacionar as cores com as emoções.
Para o artista, o vermelho deveria significar a paixão, o fogo; assim como o
azul transmitia uma ideia de paz. Neste sentido que as cores ganham destaque em
sua arte.
Kandinsky passa do expressionismo ao abstracionismo observando o desfazer da concretude na arte. Desta vez
dá mais liberdade às imagens soltas no quadro, como fossem notas musicais
dançando, dando movimento a sua obra,
e, questionando os limites do quadro. Utiliza também areia para dar a ideia de ir além do quadro, que deveria se
desfazer e dar liberdade aos sentidos,
as emoções, à arte que para nós deixa um grande legado.
Quando observamos a arte em grafite, vimos o sentido da pulsação da
arte de Kandinsky, além de transpor a
linguagem fechada e questionar a arte de
vanguarda e burguesa, fechada em círculos burgueses que não deixarão de fazer da arte objeto de
enriquecimento, com Obras em bolsas de valores e disputadas por imperialistas que , dessa forma também
manifestam seu poder e sua ideologia.
A essência da Arte de Kandinsky
pode ser sentida pelo grafite, mas também no Hip Hop como um todo, e em
diversos movimentos culturais, artísticos das classes populares e
religiosidade, também possibilitou que a arte fosse sentida pelas maiorias,
como a arte em areia, pedras, muros e também por cegos e surdos que também se
expressam artisticamente, porque na História da Arte, Kandinsky relacionou
cores aos sentidos.
Na Filosofia, a razão dá lugar
aos sentidos, Kandinsky questiona a
razão única, o pensamento único, que põe fim a liberdade criativa do
Homem, que deve pensar de dentro para
fora sobre as questões que o dominam, como a mídia, os governos e tantas formas
de dominação que o Ser Humano precisa libertar-se das inúmeras correntes que adormecem os sentidos
do Homem.
Por isso a Arte apresenta, no
caso de Kandinsky, a forma mais palpável
de pensar filosoficamente as questões que fazem parte das Ciências Humanas, e disso depende a transformação do Ser para
construção de um Mundo justo, onde todos possam e devam se expressar sobre questões que
oprimem e libertam para o conhecimento.